Desculpa mãe, hoje eu não pude fazer mais por você, acontece que eu não pude fazer muito nem por mim.
Eu tinha planos, eu sempre tenho.
Eu queria ter ido assistir o jogo com os meus amigos enquanto comia pipoca, dar
risada e me sentir bem. Queria ter cuidado um pouco de mim também, lavado o
cabelo , secado e me arrumado, como eu sempre faço quando vou sair.
Eu deveria ter ido à aula de
manhã, deveria ter estudado um pouco a tarde , arrumado meu quarto que está com
roupas por todo canto, lavado meus tênis que estão bem sujos e acho até que preciso de um banho.
Acontece que tudo o que eu fiz
hoje e durante a semana inteira foi ficar deitada na minha cama, com o quarto
bem escuro, apenas pensando e dormindo.
Eu pareço em paz? Acho que
ninguém está em paz se passa dias e dias sem fazer nada, qualquer pessoa
saudável levanta e vai atrás do que quer, todo dia vai de pouquinho em
pouquinho nos seus objetivos.
Mas o que eu quero?
Desculpa mãe, eu quero muitas
coisas apesar de não parecer, eu só não sei por onde começar, talvez eu esteja
no caminho, mas eu sempre tenho a sensação que não.
A sensação de que não tenho mais tempo, e o
tempo ele é bem rápido, mas poxa eu tenho 19 anos, mas eu nunca paro pra pensar
nisso.
A minha cabeça está o tempo todo
acelerada enquanto meu corpo se deita e dorme.
Os planos são constantes, as
realizações são pequenas, as satisfações são nulas.
Matar um leão por dia nunca fez tanto sentido.
E os meus leões eles me devoram,
são famintos, é como se eu perdesse um membro ou um sentido por ataque diário,
e assim o repouso pra tentar cicatrizar ou me recuperar disso.
To começando a perceber que às
vezes não assimilo o real do imaginário, a minha cabeça cria situações e
diálogos constantes, e dói nas vezes que se recorda de algo, parece que tudo é arrependimento,
então é melhor ficar por ali e evitar qualquer situação que gere recordações e
angustia.
Ver que as coisas não estão no
meu controle me assusta, na verdade é quase um pavor.
Eu costumava ser muito boa em
tudo o que fazia, costumava dar o melhor de mim, ser competitiva e isso me
fazia ter animo pra ter qualquer coisa que quisesse.
Eu costumava correr atrás de tudo
o que queria, mesmo que não dependesse só de mim.
Eu costumava ter iniciativa, eu
costumava liderar, opinar e me impor sem me sentir mal por isso, sem sentir
culpa.
Qualquer palavra que eu fale pra outra pessoa
hoje me gera paranoia, me gera repulsa, sinto medo, mesmo que eu tenha falado
de forma desinibida, a noite eu penso nisso e penso que tudo o que eu devo
fazer na frente das outras pessoas é ficar quieta.
Disseram-me que isso se chama
ansiedade, na verdade, às vezes eu acho que isso não deva ter um nome, são
muitas sensações pra um nome só.
Eu estou sempre dormindo, mas eu
estou sempre muito cansada. Os dias não
são produtivos, e só de levantar e tentar me arrumar é uma grande vitória.
Parece simples, eu sei deveria ser, na verdade é... Mas por algum motivo não
pra mim, a força que eu preciso buscar aqui de dentro pra realizar qualquer
coisa é inimaginável.
Não tem sentido, não tem sentido nenhum, eu só
sei que é assim que funciona.
É uma constante invalidez.

