quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Mãe, eu não estou me sentindo bem.


Desculpa mãe, hoje eu não pude fazer mais por você, acontece que eu não pude fazer muito nem por mim.
Eu tinha planos, eu sempre tenho. Eu queria ter ido assistir o jogo com os meus amigos enquanto comia pipoca, dar risada e me sentir bem. Queria ter cuidado um pouco de mim também, lavado o cabelo , secado e me arrumado, como eu sempre faço quando vou sair.
Eu deveria ter ido à aula de manhã, deveria ter estudado um pouco a tarde , arrumado meu quarto que está com roupas por todo canto, lavado meus tênis que  estão bem  sujos e acho até que preciso de um banho.
Acontece que tudo o que eu fiz hoje e durante a semana inteira foi ficar deitada na minha cama, com o quarto bem escuro, apenas pensando e dormindo.
Eu pareço em paz? Acho que ninguém está em paz se passa dias e dias sem fazer nada, qualquer pessoa saudável levanta e vai atrás do que quer, todo dia vai de pouquinho em pouquinho nos seus objetivos.
Mas o que eu quero? 
Desculpa mãe, eu quero muitas coisas apesar de não parecer, eu só não sei por onde começar, talvez eu esteja no caminho, mas eu sempre tenho a sensação que não.
 A sensação de que não tenho mais tempo, e o tempo ele é bem rápido, mas poxa eu tenho 19 anos, mas eu nunca paro pra pensar nisso.
A minha cabeça está o tempo todo acelerada enquanto meu corpo se deita e dorme.
Os planos são constantes, as realizações são pequenas, as satisfações são nulas.
Matar um leão por dia nunca fez tanto sentido.
E os meus leões eles me devoram, são famintos, é como se eu perdesse um membro ou um sentido por ataque diário, e assim o repouso pra tentar cicatrizar ou me recuperar disso.
To começando a perceber que às vezes não assimilo o real do imaginário, a minha cabeça cria situações e diálogos constantes, e dói nas vezes que se recorda de algo, parece que tudo é arrependimento, então é melhor ficar por ali e evitar qualquer situação que gere recordações e angustia.
Ver que as coisas não estão no meu controle me assusta, na verdade é quase um pavor.
Eu costumava ser muito boa em tudo o que fazia, costumava dar o melhor de mim, ser competitiva e isso me fazia ter animo pra ter qualquer coisa que quisesse.
Eu costumava correr atrás de tudo o que queria, mesmo que não dependesse só de mim.
Eu costumava ter iniciativa, eu costumava liderar, opinar e me impor sem me sentir mal por isso, sem sentir culpa.
 Qualquer palavra que eu fale pra outra pessoa hoje me gera paranoia, me gera repulsa, sinto medo, mesmo que eu tenha falado de forma desinibida, a noite eu penso nisso e penso que tudo o que eu devo fazer na frente das outras pessoas é ficar quieta.
Disseram-me que isso se chama ansiedade, na verdade, às vezes eu acho que isso não deva ter um nome, são muitas sensações pra um nome só.
Eu estou sempre dormindo, mas eu estou sempre muito cansada.  Os dias não são produtivos, e só de levantar e tentar me arrumar é uma grande vitória. Parece simples, eu sei deveria ser, na verdade é... Mas por algum motivo não pra mim, a força que eu preciso buscar aqui de dentro pra realizar qualquer coisa é inimaginável.
 Não tem sentido, não tem sentido nenhum, eu só sei que é assim que funciona.
É uma constante invalidez.

A culpa é dos filmes de romance


As pessoas se impedem de ser felizes, de viverem uma grande e bonita historia de amor e por incrível que pareça a culpa é dos filmes de romance.
Somos tão jovens, fadados a acreditar que um amor deve durar pra sempre e que ele deve ser o único da sua vida que acabamos nos fechando e tendo certo medo de relacionamentos.
Acho que se relacionar, conhecer e amar o outro como ele é, através de tantas experiências juntos, é uma das coisas mais bonitas que podemos guardar no livro da vida. Não há nada de errado em gostar, em demonstrar, sentir.
O problema é que o receio de ter que ficar com uma única pessoa acarreta em um trauma profundo de não ter conhecido pessoas o suficiente ou vivido o suficiente pra escolher isso (como se determinar um relacionamento com alguém fosse o fim da vida).
Relacionamentos existem para serem leves, transmitirem paz, conforto, diversão e aprendizado. Não são e nem devem ser um peso.
E eu vou dizer, a gente nunca vai ter conhecido pessoas o suficiente a fim de ter tido todas as experiências com relacionamentos possíveis. Cada uma é uma história, uma complexidade, um ensinamento, um sentimento diferente.
O amor é uma construção diária e as pessoas mudam todos os dias. A meu ver é impossível prever que você vai ficar com essa pessoa que está ao seu lado para sempre. O que a gente pode dizer então é que é possível entender e sentir que você quer e vai ficar com esta pessoa hoje e agora.
Você não precisa ter certeza se quer vê-la entrando de véu e grinalda na mesma igreja que seus pais se casaram daqui a 5 anos ou  se quer ver ele um dia roncando no seu sofá daqui uns 10 anos, vocês dois escolhendo o nome do pirralhinho que está por vir, brigando porque o outro deixou o cachorro entrar e fazer sujeira na sala. Se vocês chegarem até lá, isso só quer dizer que os dois estão na mesma sintonia de escolher o que querem naquele momento, e isso é incrível.
Esqueçamos então dos contos de amor, em que a moça legal cheia de coisas pra ensinar e o cara maneiro, tão divertido e empolgado, ficam juntos e em pouco tempo se escolhem pra eternidade com aquele final, depois de tanto sofrimento, com a casa no campo e os filhos no colo sorrindo.
Está com alguém agora e esta morrendo de dúvidas e medo? Apenas tenha certeza do que você quer nesse exato momento. O depois? Ah! Isso aí você mesmo vai ter certeza quando chegar lá.
Se as coisas sempre funcionassem assim, e as pessoas entendessem a importância de talvez não fazer tantos planos nos mínimos detalhes, o sofrimento pelas expectativas criadas e não realizadas seriam pequenos ou inexistentes. Não estou aqui dizendo de maneira nenhuma que você não deva panejar a sua vida, mas quando o planejar e o realizar dependem das escolhas de outra pessoa, você precisa estar aberto a entender que elas são livres, elas mudam, mesmo que hoje elas digam que sim, amanhã pode ser que não, o mesmo com você e isso não é um problema.

Então apenas se permita amar e ser amado, divirta-se, demonstre, seja livre e deixe o outro ser também, ache alguém na mesma sintonia pro agora e esteja muito feliz com isso, sem medo.